A ‘investigação’ contra o pastor; ‘caçada’ aos cristãos evangélicos?

27/09/2018
Ação contra líder evangélico simboliza uma ironia: o povo sob o qual recai a acusação de perseguição é um dos mais perseguidos
Ação contra líder evangélico simboliza uma ironia: o povo sob o qual recai a acusação de perseguição é um dos mais perseguidos

O pastor Estevam Fernandes terá cinco dias para explicar sua posição exposta no púlpito da Primeira Igreja Batista de João Pessoa sobre o turbulento processo eleitoral de 2018. A declaração virou alvo de polêmica. Ao defender princípios e valores cristãos, disse que, entre todos os sabatinados pelos pastores em Brasília, Jair Bolsonaro é o que mais se aproximou da expectativa do segmento.

“Pastores de todo o Brasil, éramos um grupo de mais ou menos 108 pastores, durante encontro em Brasília, nos reunimos para pensar o Brasil. Tínhamos ali 4 milhões de eleitores representados por líderes das maiores igrejas de todo o país. Levamos para o debate três candidatos, Marina Silva, Geraldo Alckmin e Jair Bolsonaro. E questionados sobre suas posições, sobre as questões éticas que envolvem o Brasil, com os temas ideologia de gênero e aborto todos deram suas opiniões, mas o mais claro foi Bolsonaro. Temos que alertar que a Pátria corre perigo. A gente quer um país com os valores cristãos, queremos um país que não tenhamos vergonha e nem medo de dizer que cremos na bíblia e em Jesus, na família, no casamento, que menino é menino e menina é menina e também que Deus condena o aborto”, disse.

Como se percebe, uma manifestação moderada, comedida, equilibrada e longe de ser afrontosa, constrangedora ou intimidatória contra a presumida plateia do culto. Uma postura bem própria do pastor em questão.

Estevam nem chegou a pedir voto para Bolsonaro, mas por eliminação levou a crer que o capitão é a a sua escolha. Óbvio, foi bombardeado por quem pensa diferente e vê no deputado federal do PSL uma “ameaça”.

A Procuradoria Regional Eleitoral abriu procedimento formal. Vai gastar 60 dias para ‘investigar’ um discurso público e, quem sabe, ao final, apresentar denúncia de “abuso de poder religioso”, uma nova modalidade de “crime” sugerida pelas sempre vacilantes e periódicas interpretações do Tribunal Superior Eleitoral.

Data vênia. Se prosperar, procedimento não atinge apenas o pastor Estevam. O buraco é mais embaixo. Ele atenta contra a livre manifestação de líderes sobre valores, princípios e preferências políticas. Sejam eles de quaisquer credos.

O pastor, o padre, o pai de santo, o kardecista, o budista, o rosa cruz, todos, sem exceção, têm o mesmo direito de presidentes de associações, sindicatos e artistas de expressarem sua liderança para orientar seus liderados ou seguidores em relação a um tema cuja relação exerce reflexo direto junto aos seus respectivos segmentos. Nos tempos bicudos de hoje, eu diria: mais do que direito, eles têm o dever.

Diferente de celebridades em shows e apresentações para públicos heterogêneos, quando se posicionam líderes religiosos costumam se limitar as quatro paredes de suas instituições. No máximo, vão às redes sociais. Raramente, são vistos em palanques ou guias eleitorais. Ao menos, o mais conscientes do seu dever cívico e religioso.

Posso até divergir da visão do pastor Estevam, mas não posso castrá-lo do sagrado direito de professar e defender sua escolha. Nem ele e nem nenhum outro líder.

Abuso de poder a ser realmente investigado acontece todos os dias nas máquinas públicas paraibanas, de todos os lados. Nelas, servidores, comissionados ou contratados, são impelidos a participar de caminhadas, carreatas, a arrancar adesão de moradores de suas áreas de atuação em favor de seus ‘candidatos’. Isso acontece aos montes na estrutura paga com o dinheiro do povo. E quase não se tem notícia de algum procedimento do gênero aberto para apurar essas irregularidades.

A intenção do MPF pode até ser a melhor possível, a de prevenir e alertar sobre excessos nos templos, mas pode terminar servindo, involuntariamente, ao ‘patrulhamento’ ideológico que trabalha pela estigmatização da fé, sobretudo, evangélica, como sinônimo de ignorância ou radicalismo. Se existe uma igreja que sempre teve forte atuação política, esta é a Igreja Católica, nunca contestada nessa opção. E está no seu direito.

Por que, então, agora essa ‘caçada’ aos cristãos evangélicos? 

Por Heron Cid

 



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