Técnicos deixam ética de lado e se mudam para rivais contra Série B

30/11/2019
 Argel abandonou CSA no meio do caminho pelo "outro patamar" Ceará (CSA)
Argel abandonou CSA no meio do caminho pelo "outro patamar" Ceará (CSA)
A ciranda de troca de técnicos na Série A do Brasileirão, nas últimas horas, mostra que o pensamento majoritário entre treinadores nativos ainda é o seguinte: ética profissional é um conceito do qual preciso defender exclusivamente quando o prejudicado sou eu.

Abel Braga foi demitido do Cruzeiro após a derrota por 1 a 0 para o CSA, no Mineirão, nesta quinta-feira (28), que colocou o time mineiro na zona de rebaixamento, a três rodadas do final do campeonato.

Para o lugar de Abel, o desesperado Cruzeiro contratou Adilson Batista, seu quarto treinador em 2019. Adilson era treinador do Ceará até a véspera, quando foi demitido após levar 4 a 1 do Flamengo, no Maracanã.

É verdade que a equipe cearense vinha de duas derrotas e um empate, está na boca do Z4 e rubro-negro ainda curava a ressaca das conquistas da Libertadores e do Brasileirão.

Mesmo assim, ao que os cartolas do Vozão permitem concluir, esperavam uma vitória sobre o Flamengo em pleno Maracanã lotadão, pois condicionaram, ou ao menos ligaram, a derrota à demissão de Adilson que, afinal, deixa a equipe ainda fora da zona da degola. Pois é.

Nesta quinta-feira (29), Abel voltou para seu aconchegante apartamento no Leblon, no Rio. O ex-Ceará Adilson Batista assumiu o Cruzeiro.

E Argel Fucks, comandante do CSA até a vitória da quinta-feira (28) sobre o Cruzeiro, simplesmente abandonou o barco da equipe alagoana no auge da revolta do mar, em 18º lugar na zona de rebaixamento, com 32 pontos, quatro a menos do que o time mineiro, o 17º.

E, não satisfeito, jogou-se no colo da cartolagem do Vozão, assumindo o comando da equipe cearense no lugar de Adilson Batista. Tudo isso após uma vitória maiúscula do CSA sobre um adversário que jamais caiu no Brasileirão.

Uma beleza. Uma maravilha.

Ética e postura profissional decente passaram longe dessa versão limbo do célebre poema Quadrilha de Carlos Drummond de Andrade. “Com todo o respeito ao CSA, mas o Ceará é um degrau acima neste momento. Estava no CSA, o caçula da competição, com menor investimento, há 30 anos sem disputar a Série A há 30 anos. Agora é um patamar diferente”, teve coragem de desembuchar, sem rubor ou calor no rosto, o professor Argel em sua apresentação no Vozão.

Papinho. Conversa – e sem qualquer “respeito ao CSA”.

Que confiança profissional merece ter um treinador que assume um compromisso com uma equipe que faz tanto sacrifício para chegar e permanecer na Primeirona – exatamente como o próprio Argel lembrou – e a abandona a três rodadas do final justamente quando ela ensaia uma reação a partir de uma vitória difícil e elogiável contra um rival de peso na luta para fugir de Z4?

A mesma do escorpião que pega carona com o sapo para atravessar o rio e depois o pica de morte na fábula conhecida. Quem garante que o sujeito não vá te abandonar log ali na frente quando você mais precisará dele? Quem consegue planejar algo com punhaladas vindas de punhais desse porte?

“A sensação que tenho é exatamente essa: de traição. Não teria dinheiro no mundo que me fizesse largar o clube numa situação dessa. Frustrou uma torcida fantástica, uma diretoria que cumpre rigorosamente os compromissos assumidos e frustrou também uma amizade”, lamentou o presidente do CSA, Rafael Tenório.

Até as lagostas e camarões que passeiam pelos litorais cearense e alagoano consideram que a coisa está mais para isso mesmo: traição.

É preciso dizer que Adilson não teve iniciativa antiética ao atender o chamado do Cruzeiro. Demitido pelo Ceará, recebeu em casa o convite para substituir o já desempregado Abel e chegou a receber boa sorte do antecessor.

Sua dispensa sem piedade do Vozão no apagar das luzes do campeonato ilustra, no entanto, o aval que todo cartola brasileiro acha ter, para fazer o que bem entender quando bem entender, com todos os treinadores contratados.

Se os técnicos nos abandonam e cospem sobre o combinado à primeira proposta surgida no caminho, por que não podemos fazer o mesmo? A norma nada oculta entre cartolas e treinadores é exatamente essa no Brasil – e em duas vias plenas, com mão e contramão.

Um olho por olho de compensação de podridão, bancado em grande parte pela atitude eternamente individualista, egoísta e até pusilânime da suprema maioria dos técnicos, embora sejam eles os primeiros a reclamar quando o resultado os prejudica.

Lembremos de um caso recente altamente ilustrativo. No início de novembro, o jornalista Juca Kfouri noticiou que o ex-técnico do Corinthians, Fábio Carille, teria um acerto para treinar o Atlético-MG em 2020.

O Galo, ainda hoje comandado por Vagner Mancini, desmentiu a informação de forma seca em sua conta oficial no Twitter: “Não procede”, limitaram-se a escrever.

Se Carille de fato recebeu a proposta com Mancini empregado e alguém, que não ele, serviu de fonte para Kfouri, eticamente correto seria o ex-técnico corintiano agradecer o convite e, fosse seu interesse, colocar-se à disposição para conversar em um outro momento, com o Galo sem técnico.

Se não recebeu a proposta, como disse o Galo, e foi ele próprio a fonte falsa de Kfouri, errou de novo. E se, por fim, Carille recebeu o telefonema e não tomou qualquer atitude pública para confirmar o convite, com suas provas e argumentos, diante da negativa do Atlético-MG, escorregou de novo. Alguém mentiu entre Atlético-MG, Carille e a possível terceira fonte que passou a informação para Kfouri, se é que ela existe – só que o Galo se defendeu, e Carille não.

Técnicos brasileiros seguem tratados pelos cartolas dessa forma porque, acima de tudo, tratam todos – e sobretudo eles próprios - também dessa forma.

No caso do Ceará, tudo indica que seus dirigentes e torcedores podem ficar tranquilos porque, a apenas três rodadas e nove dias do final, talvez não tenha tempo sequer de armar outra picada venenosa ao estilo da parábola do escorpião com o sapo.

Mas que é da natureza da maioria da turma, ah, isso é. Lamentável.

R7




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