Famílias da Paraíba aderem à educação domiciliar; filhos têm aulas em casa

09/09/2018

O ensino nas escolas não é a única forma de alfabetizar as crianças. Comum em outros países, a educação domiciliar tem crescido no Brasil. Na Paraíba, a família de Suzanne, de Thaís, de Suellen, de Carolina e muitas outras praticam o que ficou conhecido internacionalmente como ‘homeschooling’.Apesar de crescente popularidade, o Supremo Tribunal Federal (STF) ainda julga a possibilidade de os pais educarem os filhos em casa.

De acordo com a Associação Nacional de Educação Domiciliar (Aned), em 2018 cerca de 7,5 mil famílias são adeptas à educação domiciliar. Mesmo ensinando os filhos em casa, a prática não obedece à rotina de uma unidade regular de ensino e foge da comparação de ‘escola em casa’.

A paraibana Suzanne Barros é mãe e homeschooler – pessoa responsável pelo ensino em casa. Ao Portal MaisPB, Suzanne contou que as atividades com seu filho Noah começaram desde cedo.

“Quando ele estava no ventre nós líamos para ele, colocávamos músicas para ele ouvir e conversávamos com aquele bebezinho que ainda estava na barriga, porém já ouvia e respondia aos estímulos com chutes e movimentos”, explica.

Noah chegou a fazer parte de um espaço formal de educação, mas a experiência não foi tão agradável. Para a mãe e educadora, a instituição não contempla as individualidades infantis e tem um ensino ‘conteudista, distante, focado em competitividade que limita a criança’.

Hoje com cinco anos, Noah não tem hora certa para aprender e desfruta de uma rotina intensa de aprendizado. As atividades acontecem durante todo o tempo e os pais aproveitam as oportunidades para explorar o cognitivo do filho.

“Todo o dia e todos os espaços se tornam possibilidades de aprendizagem”, revela Suzanne.

A família de Thaís também prefere o aconchego do lar na hora ensinar Tomaz, de três anos.  A arquiteta sequer cogitou outra opção, já que também foi ensinada pela mãe em seus primeiros anos de vida.

Apesar da pouca idade de Tomaz, seus pais acharam uma forma de começar a orientar o filho. A leitura em voz alta é uma ferramenta considerada indispensável no exercício de sua aprendizagem. Além de despertar a criatividade, Thaís conta que ler os livros para o filho ajuda na construção do vocabulário da criança.

As brincadeiras acontecem em casa, na praia, na praça e sempre têm um propósito.   “Desenho no chão as formas geométricas e apresento a ele o círculo, o quadrado. Ele está brincando e ao mesmo tempo trabalho percepção visual, atenção, memória”, explica.

Durante uma atividade de percepção visual, Tomaz tinha que procurar de acordo com o formato da chave a fechadura adequada através da silhueta dela. (Foto: arquivo pessoal)

Interação

De acordo com a coordenadora do curso de pedagogia da FPB e pedagoga, Samara Barbosa, um dos pontos importantes do ensino tradicional é a possibilidade de interação diária com outras crianças.  “Essa é uma fase em que elas aprendem através das interações e brincadeiras”, pontuou ao Portal MaisPB.

A pedagoga afirma não ver problemas neste modelo de educação, desde que aconteça até o ensino fundamental. Segundo ela, entre os 6 e 15 anos, as crianças e os adolescentes aprendem muito com os outros através da interação e socialização, além de desenvolver as competências emocionais.

“Isso é algo que o ensino domiciliar não ofereceria e sabemos que no mercado de trabalho no futuro, eles precisarão”, avalia.

Os adeptos do homeschooling alegam que a escola não é o único local de socialização e descartam o isolamento da criança. Na Paraíba, o Educar-PB promove encontros entre as famílias.

O Educar-PB é uma rede que conecta as famílias participantes do ensino domiciliar. Na Paraíba, mais de 50 famílias integram o grupo que funciona como um suporte para os pais. Os participantes se reúnem mensalmente e durante os encontros trocam informações, compartilham materiais didáticos e dão suporte em situações de dúvida.

“Acabou virando uma grande família, uma rede de apoio”, explicou ao Portal MaisPB Carolina Frincu, que fundou a rede no estado há oito anos.

Carolina revela que ao conviver na adolescência com um casal americano que educava os filhos em casa passou a considerar a ideia. Atualmente seu filho mais velho tem 8 anos e aos 5 foi alfabetizado em casa: nunca foi a uma escola tradicional.

Sua filha mais nova também é educada em casa. Carolina continua usando atividades do dia a dia para ensinar as crianças. Orgulhosa, ela narrou ao Portal MaisPB um dos episódios.

“Eu estava limpando um balcão na cozinha e conversando com minha filha. Ela quis saber o que era o ‘X’ que vira num livro, entre números. Expliquei a multiplicação e usei coisas que estavam dispostas no balcão para que ela visualizasse. Assim, simples, em menos de 10 minutos ela estava fazendo tabuada”.

A rede de apoio, que existe também em outros estados, tem fundamento cristão. O capítulo 6 do livro bíblico Deuteronômio é usado como referência para a prática do estudo domiciliar. Segundo Carolina, não existe uma idade certa para começar ou terminar o homeschooling, podendo iniciar desde os primeiros anos de vida e finalizar em uma graduação no ensino superior.

Para a certificação do Ensino Médio, explica ela, o adolescente pode realizar o Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos (Encceja) e estará apto para prestar vestibular ou o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).

Crescimento na Paraíba

Integrante do Educar-PB, a mãe e educadora Suellen Borba tem notado um crescimento no interesse dos pais pelo ensino domiciliar. Segundo ela, neste último ano a procura aumentou consideravelmente. Para ela, os pais têm buscado conhecimento e perdido o medo.

Nem sempre o processo acontece de forma rápida. Ao Portal MaisPB, a educadora contou que cada família tem seu tempo de adaptação. Alguns, no início, mantém os filhos na escola e em paralelo ensinam também em casa. Nesses casos, a expectativa é que com o tempo a criança passe a ter o aprendizado apenas em domicílio.

Segundo as famílias educadoras, é comum que quem pense na possibilidade do homeschooling se depare com dificuldades e insegurança. Para Thaís, mãe de Tomáz, o segredo para vencer o medo de ensinar em casa é simples.

“Você só precisa estar uma semana à frente do seu filho. A educação domiciliar é conjunta, um estudo diário. Esteja apto para aprender mais do que a ensinar. Ame estar ali, dedicando o tempo sem reservas. Os frutos virão e serão muito mais do que letras”

Decisão no Supremo Tribunal Federal

Na última quinta-feira (6), o Supremo Tribunal Federal (STF) iniciou o julgamento sobre o ensino em casa. O ministro Luis Roberto Barroso é o relator da ação e votou a favor do homeschooling.

Barroso defendeu a autonomia dos pais na educação dos filhos. O ministro argumentou que alguns pais preferem comandar o ensino por conta da ineficácia das políticas públicas. Ele ainda citou o sucesso do homeschooling em outros países.

Após o voto do ministro, o julgamento foi suspenso e deverá ser retomado nesta semana, onde outros dez ministros devem votar.

Caroline Queiroz – MaisPB




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